Um grande comunicador nunca pede desculpa
De Jorge Javier Vázquez a Cristina Ferreira: o pedido de desculpas como espectáculo televisivo — e o problema estrutural que a TDT portuguesa teima em não resolver.

Um grande comunicador nunca pede desculpa. A certo ponto, o volume de opiniões que este tipo de personagens move faz com que o que se diz deixe de ser pertinente — a regra é falarem, seja bem seja mal, sobretudo num contexto que vive de likes e de views.
Lembrei-me especificamente de um episódio clássico do Jorge Javier Vázquez, em que ele chama filha da puta à Aida Nizar enquanto esta estava, creio, a fazer o Sobreviventes.
Em Espanha, os concorrentes têm defensores contratados para estarem em estúdio — nessa noite, era a mãe dela.
A mãe da Nizar, confirmando a estirpe da filha, montou um pollo sobre a expressão, gritando furiosa e repetidamente "que has llamado a mi hija?" e, a certo ponto, tentando picá-lo: "tú, un gran comunicador, ¿qué has llamado a mi hija?"
Dentro do que é o seu estilo (o JJV é a Kylie Minogue da comunicação de massas, no sentido em que é intocável), deixou a senhora gritar e envergonhar-se, passou depois a imitá-la jocosamente e acabou por confirmar: "le he llamado hija de puta".
A verdade é que não sabemos se o incidente, que ocorreu em 2011, não terá sido combinado — a grelha da Telecinco é extremamente permeável ao estilo neoreality.
O que sabemos é que ele se manteve intocável. Tem hoje um programa diário (tipo Fátima Lopes do início da SIC) e apresenta as galas dos principais realities da casa.
O fenómeno Sálvame acabou a 23 de junho de 2023, a máquina foi desmembrada — só ficou o Jorge, como se nada.
Cristina Ferreira e a economia da desculpa
A televisão linear está morta. Tal como Deus.
A única coisa que mantém o espectador agarrado a este tipo de conteúdo é a interactividade e a expectativa programada.
A expectativa programada dá-se quando um pedido de desculpas passa a ter hora marcada e anúncio antecipado na grelha da estação, e ganha contornos de Grande Entrevista no principal programa de informação da estação.
Nunca se esqueçam que um canal de televisão é um negócio, sobretudo os privados. Os limites do negócio são a moral e a ética — que têm, elas próprias, limites relativos.
As audiências mandam e, neste momento, o trending topic do X é #cristinaferreira. O Jornal Nacional deverá ter tido a melhor noite dos últimos tempos.
A comunicadora não pediu desculpas — o jornalista sugeriu que aquilo era antes um lamento, e ela concordou.
Três minutos mais tarde está a apresentar o especial diário do reality show da temporada e, no intervalo, ainda vende jogo. A sorrir e a rir.
As desculpas em televisão só são pedidas entre pessoas, nunca de uma para todos (com excepções, como D. Juan Carlos e o seu "me he engañao"). Se houver duas partes interessadas em fazer as pazes, há sempre muita gente que quer ver.
O exemplo que deixo ainda não aconteceu: vai ser o reatar de relações entre o Rui Oliveira Nunes e a Luciana Abreu, em direto.
Neste caso, as pazes são com o público.
O que eu li na pergunta mal feita da Cristina Ferreira foi um questionar do efeito manada na gestão das emoções e das decisões. Correu-lhe mal, saiu-lhe leviano e dúbio, corriqueiro.
Correu-lhe ainda pior quando não se explicou imediatamente. Bastava ter esclarecido o que disse. Ou não — se o objectivo era capitalizar, está a correr lindamente.
Porque é que a televisão portuguesa tem um problema estrutural
A TVI tem a CMTV à perna. No dia em que a CMTV chegar à TDT, o jogo acaba.
A CMTV já tem manhãs, crónica social consistente em duas franjas, jornalismo populista 24/7 e filmes XXX ao sábado.
Lembrem-se que eles até novelas já tiveram — uma horrorosa, com a saudosa Eunice Muñoz.
Durante as tempestades, ensaiaram um modelo de 24 horas em direto de todo o país. São míticas as entrevistas de fundo da @tanialaranjo aos cidadãos que estavam de guarda aos rios às duas e meia da manhã, naquela noite que prometia ser de dilúvio mas não foi.
O que importa aqui é o modelo: em direto, 24 horas. Não há forma de a TVI acompanhar isto a não ser que se reinvente. Ou que comece a fazer igual.
Vimos isso acontecer com o recente episódio da traição no SS10, escandalosamente explorado, e agora com a expressão infeliz da Cristina Ferreira e a gestão desse contexto.
Acresce aqui ainda que, mais tarde ou mais cedo, o actual modelo de subscrição de serviços de comunicação terá de mudar.
Um dia destes o consumidor acorda e apercebe-se de que está a pagar várias vezes pelo mesmo conteúdo. As estações públicas e privadas portuguesas são financiadas com o dinheiro da população, que depois as paga novamente no pacote de net+tv.
Há casos ridículos, como o da @nowoportugal, que cobra em premium o acesso aos canais regionais da RTP.
Vendo bem, uma pessoa que tenha o pacote mais básico de TV tem acesso a uma grelha de canais recheados de reruns que nem a @rtpmemoria se lembraria de emitir.
O resto são os generalistas portugueses e as suas infindáveis telenovelas com temporadas, e os canais de notícias que dão todos o mesmo: comentário da bola, comentário político, repete e repete. Um assunto à parte é a autogeração em catadupa de painelistas especialistas em tudo.
Ora, este pacote de canais que já pagamos, incluindo as rádios, deveria estar presente na TDT obrigatoriamente — podendo depois os privados que quisessem aderir também à plataforma gratuita.
No entanto, a TDT em Portugal oferece apenas os sete canais nacionais generalistas e informativos: RTP1, RTP2, RTP3, RTP Memória, SIC, TVI e o Canal Parlamento (ARTV). Nas regiões autónomas, a RTP Açores e a RTP Madeira substituem, respetivamente, a RTP3 e a RTP Memória.
Numa reportagem da @RTPNoticias, em 2011, antes de haver TDT em Portugal: "Em Espanha, onde a TDT já existe há quase dois anos, num modelo diferente do que está previsto para Portugal, a cobertura é total e oferece dezenas de canais em sinal aberto, sem recurso a plataformas pagas."
Uma prova de que de Espanha, às vezes, vêm bons ventos.


