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Televisão

Um grande comunicador nunca pede desculpa

De Jorge Javier Vázquez a Cristina Ferreira: o pedido de desculpas como espectáculo televisivo — e o problema estrutural que a TDT portuguesa teima em não resolver.

21 de abril de 20265 min de leitura
Ilustração satírica de Cristina Ferreira vestida de dourado, sentada num trono cercado por ecrãs com logótipos de canais portugueses e cartazes que a coroam 'rainha de todos os conteúdos'.
Ilustração satírica de Cristina Ferreira vestida de dourado, sentada num trono cercado por ecrãs com logótipos de canais portugueses e cartazes que a coroam 'rainha de todos os conteúdos'.

Um grande comunicador nunca pede desculpa. A certo ponto, o volume de opiniões que este tipo de personagens move faz com que o que se diz deixe de ser pertinente — a regra é falarem, seja bem seja mal, sobretudo num contexto que vive de likes e de views.

Lembrei-me especificamente de um episódio clássico do Jorge Javier Vázquez, em que ele chama filha da puta à Aida Nizar enquanto esta estava, creio, a fazer o Sobreviventes.

Em Espanha, os concorrentes têm defensores contratados para estarem em estúdio — nessa noite, era a mãe dela.

A mãe da Nizar, confirmando a estirpe da filha, montou um pollo sobre a expressão, gritando furiosa e repetidamente "que has llamado a mi hija?" e, a certo ponto, tentando picá-lo: "tú, un gran comunicador, ¿qué has llamado a mi hija?"

Dentro do que é o seu estilo (o JJV é a Kylie Minogue da comunicação de massas, no sentido em que é intocável), deixou a senhora gritar e envergonhar-se, passou depois a imitá-la jocosamente e acabou por confirmar: "le he llamado hija de puta".

A verdade é que não sabemos se o incidente, que ocorreu em 2011, não terá sido combinado — a grelha da Telecinco é extremamente permeável ao estilo neoreality.

O que sabemos é que ele se manteve intocável. Tem hoje um programa diário (tipo Fátima Lopes do início da SIC) e apresenta as galas dos principais realities da casa.

O fenómeno Sálvame acabou a 23 de junho de 2023, a máquina foi desmembrada — só ficou o Jorge, como se nada.

Cristina Ferreira e a economia da desculpa

A televisão linear está morta. Tal como Deus.

A única coisa que mantém o espectador agarrado a este tipo de conteúdo é a interactividade e a expectativa programada.

A expectativa programada dá-se quando um pedido de desculpas passa a ter hora marcada e anúncio antecipado na grelha da estação, e ganha contornos de Grande Entrevista no principal programa de informação da estação.

Nunca se esqueçam que um canal de televisão é um negócio, sobretudo os privados. Os limites do negócio são a moral e a ética — que têm, elas próprias, limites relativos.

As audiências mandam e, neste momento, o trending topic do X é #cristinaferreira. O Jornal Nacional deverá ter tido a melhor noite dos últimos tempos.

A comunicadora não pediu desculpas — o jornalista sugeriu que aquilo era antes um lamento, e ela concordou.

Três minutos mais tarde está a apresentar o especial diário do reality show da temporada e, no intervalo, ainda vende jogo. A sorrir e a rir.

As desculpas em televisão só são pedidas entre pessoas, nunca de uma para todos (com excepções, como D. Juan Carlos e o seu "me he engañao"). Se houver duas partes interessadas em fazer as pazes, há sempre muita gente que quer ver.

O exemplo que deixo ainda não aconteceu: vai ser o reatar de relações entre o Rui Oliveira Nunes e a Luciana Abreu, em direto.

Neste caso, as pazes são com o público.

O que eu li na pergunta mal feita da Cristina Ferreira foi um questionar do efeito manada na gestão das emoções e das decisões. Correu-lhe mal, saiu-lhe leviano e dúbio, corriqueiro.

Correu-lhe ainda pior quando não se explicou imediatamente. Bastava ter esclarecido o que disse. Ou não — se o objectivo era capitalizar, está a correr lindamente.

Porque é que a televisão portuguesa tem um problema estrutural

A TVI tem a CMTV à perna. No dia em que a CMTV chegar à TDT, o jogo acaba.

A CMTV já tem manhãs, crónica social consistente em duas franjas, jornalismo populista 24/7 e filmes XXX ao sábado.

Lembrem-se que eles até novelas já tiveram — uma horrorosa, com a saudosa Eunice Muñoz.

Durante as tempestades, ensaiaram um modelo de 24 horas em direto de todo o país. São míticas as entrevistas de fundo da @tanialaranjo aos cidadãos que estavam de guarda aos rios às duas e meia da manhã, naquela noite que prometia ser de dilúvio mas não foi.

O que importa aqui é o modelo: em direto, 24 horas. Não há forma de a TVI acompanhar isto a não ser que se reinvente. Ou que comece a fazer igual.

Vimos isso acontecer com o recente episódio da traição no SS10, escandalosamente explorado, e agora com a expressão infeliz da Cristina Ferreira e a gestão desse contexto.

Acresce aqui ainda que, mais tarde ou mais cedo, o actual modelo de subscrição de serviços de comunicação terá de mudar.

Um dia destes o consumidor acorda e apercebe-se de que está a pagar várias vezes pelo mesmo conteúdo. As estações públicas e privadas portuguesas são financiadas com o dinheiro da população, que depois as paga novamente no pacote de net+tv.

Há casos ridículos, como o da @nowoportugal, que cobra em premium o acesso aos canais regionais da RTP.

Vendo bem, uma pessoa que tenha o pacote mais básico de TV tem acesso a uma grelha de canais recheados de reruns que nem a @rtpmemoria se lembraria de emitir.

O resto são os generalistas portugueses e as suas infindáveis telenovelas com temporadas, e os canais de notícias que dão todos o mesmo: comentário da bola, comentário político, repete e repete. Um assunto à parte é a autogeração em catadupa de painelistas especialistas em tudo.

Ora, este pacote de canais que já pagamos, incluindo as rádios, deveria estar presente na TDT obrigatoriamente — podendo depois os privados que quisessem aderir também à plataforma gratuita.

No entanto, a TDT em Portugal oferece apenas os sete canais nacionais generalistas e informativos: RTP1, RTP2, RTP3, RTP Memória, SIC, TVI e o Canal Parlamento (ARTV). Nas regiões autónomas, a RTP Açores e a RTP Madeira substituem, respetivamente, a RTP3 e a RTP Memória.

Numa reportagem da @RTPNoticias, em 2011, antes de haver TDT em Portugal: "Em Espanha, onde a TDT já existe há quase dois anos, num modelo diferente do que está previsto para Portugal, a cobertura é total e oferece dezenas de canais em sinal aberto, sem recurso a plataformas pagas."

Uma prova de que de Espanha, às vezes, vêm bons ventos.

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