Big Brother All Stars e a lógica dos grandes êxitos
Duas edições, dois meses cada, a fechar o ano da TVI só com concorrentes já conhecidos — o que o Big Brother All Stars revela sobre o esgotamento do formato reality.

Em setembro estreia o Big Brother All Stars — duas edições, dois meses cada, a fechar o ano da TVI com os concorrentes que a estação considera mais marcantes da sua própria história recente. É a primeira vez que o conceito é feito em Portugal, e não é inocente: é o sintoma mais claro de que o formato está a ficar sem gente nova para queimar.
A máquina não pára
Façam as contas comigo. A 1ª Companhia terminou em fevereiro. O Secret Story 10 fechou em abril. Seguiu-se o Desafio Final, apresentado pela Cristina Ferreira, com cerca de dois meses de duração. Depois entrou a segunda edição do Big Brother Verão. E, a fechar o ano, o All Stars — não uma vez, duas.
Ou seja: de fevereiro a dezembro, a TVI não passa, nem por uma semana, sem um reality show a decorrer em horário nobre. Isto já não é grelha de programação. É uma linha de montagem a trabalhar a três turnos.
E o problema não é a quantidade em si — é o que a quantidade obriga a fazer ao conteúdo. Quando não há pausa entre edições, não há tempo para deixar um formato assentar, nem espaço para um público se cansar e voltar a ter saudades. Substitui-se o descanso pela repetição.
A lógica dos grandes êxitos
O truque do All Stars não é novo — só é novo em Portugal. A Big Brother americana já correu várias temporadas All-Stars, a Love Island britânica criou uma versão de inverno para preencher os meses sem edição original, o RuPaul's Drag Race construiu um império de spin-offs à volta de trazer de volta quem já tinha conquistado o público. Reciclagem de fama, com garantia de retorno.
Faz todo o sentido de negócio: um concorrente desconhecido é uma aposta; um concorrente que já foi amado ou odiado em direto é audiência garantida à partida, porque a relação parassocial já está feita — o público já decidiu o que sente por aquela pessoa antes de a câmara ligar.
Já circulam dois nomes, Inês Morais e Francisco Monteiro, ainda sem confirmação oficial. O mais provável é que sejam escolhidos não os melhores jogadores, mas os mais lembrados — e é essa diferença que interessa perceber.
O preço da familiaridade
O que este calendário revela é um formato que deixou de confiar em descobrir gente nova. A casa deixa de ser o lugar onde se revela quem alguém é, para passar a ser o lugar onde se confirma quem já sabíamos que era.
É mais seguro para a estação. É mais previsível para o público. E é, ao mesmo tempo, o princípio do fim — porque um género que só sabe repetir-se a si próprio perdeu a única coisa que o justificava: a possibilidade de surpresa.
Como já disse sobre a CMTV e a TDT: a televisão portuguesa tem um problema estrutural. Este é só mais um sintoma — só que desta vez, o sintoma tem nome e data de estreia.


