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Televisão

Fora do Baralho: o público apareceu. Depois saiu

De 13,6% de share na estreia a 9,4% na segunda emissão e 10,0% na terceira: a curiosidade levou o público à TVI. O hábito ainda está por conquistar.

18 de outubro de 20265 min de leitura
Imagem de abertura do programa Fora do Baralho, da TVI, com o título sobre um cenário de cartas de jogo.
Imagem de abertura do programa Fora do Baralho, da TVI, com o título sobre um cenário de cartas de jogo.

Na estreia, o público apareceu. Na semana seguinte, uma parte considerável tinha outros planos. O cenário continuava grande. A audiência, nem por isso.

Quando escrevi Fora do Baralho. Dentro de 2004, terminei com uma concessão: a estreia tinha liderado a tarde, com 13,6% de share. Podia não gostar da linguagem do programa, mas o resultado existia. Uma crítica não ganha o direito de apagar um número só porque lhe estraga o remate.

Agora há mais números. E já não contam exactamente a mesma história.

Primeiro, as contas

Segundo os resultados publicados por A Televisão, a estreia de 26 de setembro registou 4,5% de rating, 13,6% de share e cerca de 446,8 mil espectadores. Era um bom ponto de partida. Não era, ainda, uma relação duradoura.

Na segunda emissão, a 3 de outubro, a Hiper.fm noticiou 9,4% de share e 298,7 mil espectadores. Entre uma tarde e a outra, a média perdeu cerca de 148 mil espectadores. O share caiu 4,2 pontos percentuais.

A 10 de outubro houve uma recuperação parcial: 3,2% de rating e 10,0% de share, segundo o Dioguinho. Portanto, não estamos perante uma descida contínua. Estamos perante uma quebra forte depois da estreia, seguida de uma subida que ainda deixou o programa 3,6 pontos percentuais abaixo do primeiro sábado.

Convém não baralhar as medidas: share é a fatia de quem estava a ver televisão naquele período; rating mede a audiência face ao universo considerado pela medição. Uma diferença de share não é, por si só, uma contagem de pessoas que abandonaram o programa. Nem sabemos se quem viu num sábado era exactamente quem estava em frente ao ecrã no seguinte.

Os resultados aqui analisados vão até à emissão de 10 de outubro. Não incluo um valor para 17 de outubro por não o ter conseguido confirmar nas fontes consultadas até à publicação deste texto.

Uma estreia não é um hábito

Uma estreia vende uma pergunta: o que é isto? A segunda emissão já precisa de vender uma resposta: porque hei-de voltar?

São trabalhos diferentes. A promoção, os nomes conhecidos e a promessa de uma novidade podem fazer abrir a porta. Não conseguem, sozinhos, convencer alguém a passar ali a tarde todos os sábados.

É aqui que a minha crítica ao primeiro programa continua a fazer sentido. Não porque os números provem que eu tinha razão — não provam —, mas porque obrigam a voltar à pergunta que o cenário monumental deixava escondida: qual é a razão para regressar?

Goucha sabe conduzir televisão. João Patrício oferece outra presença e outra dinâmica. Um auditório, convidados e jogos dão material para encher a emissão. Mas encher uma emissão não é a mesma coisa que criar falta quando ela não está lá.

A televisão tem uma capacidade extraordinária para confundir reconhecimento com desejo. Conheço o apresentador. Conheço o tipo de jogo. Conheço a maneira de anunciar o prémio. Isso pode ser confortável. Também pode ser uma excelente razão para ir fazer outra coisa.

As audiências não explicam tudo

Seria fácil escrever que o público se fartou das luzes, das cartas ou daquelas mecânicas que me pareceram tão pouco estimulantes. Seria fácil e seria intelectualmente preguiçoso.

Uma tabela de audiências não entrevista espectadores. Não explica, por si só, se a quebra veio do formato, da concorrência, da disponibilidade de quem estava em casa ou do simples fim da curiosidade inicial. Muito menos permite declarar a morte de um programa ao fim de três resultados.

O que permite dizer é menos espectacular e mais útil: a vantagem da estreia não ficou assegurada nas duas emissões seguintes. A estação ainda tem de trabalhar para a recuperar.

E a recuperação de 9,4% para 10,0% merece ser registada, precisamente porque isto é uma análise e não uma campanha para ter razão. Há uma diferença entre um programa com dificuldades em fixar público e um programa condenado. Os dados que temos não autorizam a segunda sentença.

Menos aparato. Mais motivo

Na primeira crónica propus uma alternativa: uma conversa semanal sobre televisão e celebridades, com Goucha e João Patrício a fazerem mais do que acompanhar escolhas de cartas. Mantenho a ideia. Não como receita de audiência garantida — essas receitas costumam existir sobretudo depois de o resultado sair —, mas como hipótese editorial.

O que aconteceu durante a semana? Que conversa merece ser continuada? Que convidado tem alguma coisa para dizer, e não apenas uma presença para cumprir? Onde está o momento que só podia acontecer naquele sábado?

Um jogo pode criar isso. Uma conversa também. O problema nunca foi a existência de jogos. Foi a sensação de que o jogo estava lá para preencher o lugar onde devia estar uma ideia.

Não é preciso tornar o programa pequeno. É preciso tornar a promessa mais clara. O público deve perceber depressa o que ganha em ficar: uma história, uma surpresa, uma disputa que acompanha, uma conversa de que quer ouvir o fim.

Mais luz não resolve uma promessa vaga. Um ecrã maior também não.

As cartas ainda estão na mesa

O primeiro sábado deu à TVI um resultado para celebrar. Os dois seguintes deram-lhe trabalho para fazer. São coisas que podem coexistir sem que seja necessário transformar cada semana numa vitória histórica ou numa catástrofe.

Fora do Baralho não precisa de provar outra vez que consegue montar um grande cenário. Precisa de provar que há qualquer coisa lá dentro de que sentimos falta quando mudamos de canal.

Na estreia, o público foi ver o que havia. Voltar é outra conversa.

Fontes e contexto

Esta é uma crónica de opinião. Os valores de audiência são os divulgados nas notícias abaixo; a leitura do formato é minha. As comparações referem-se às médias das emissões, não ao comportamento individual dos espectadores.

Estreia de 26 de setembro: A Televisão — Fora do Baralho estreia a liderar.

Emissão de 3 de outubro, notícia publicada a 4 de outubro: Hiper.fm — Depois da estreia, Fora do Baralho desce audiências.

Emissão de 10 de outubro, notícia publicada a 11 de outubro: Dioguinho — Estrelas ao Sábado empata a tarde da TVI.

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