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Televisão

Fora do Baralho. Dentro de 2004

A TVI prometeu grande televisão. Entregou um cenário gigante, Goucha, João Patrício, muita luz e jogos que parecem ter sido encontrados numa cave.

27 de setembro de 20266 min de leitura
Imagem de abertura de Fora do Baralho, com cartas de jogo e uma paisagem portuguesa.
Imagem de abertura de Fora do Baralho, com cartas de jogo e uma paisagem portuguesa.

Publicado na sequência da estreia de Fora do Baralho, TVI — 26 de setembro de 2026.

Há programas que nos fazem perceber para onde vai a televisão.

E depois há Fora do Baralho, que nos faz perceber de onde ela veio.

O novo programa da TVI, apresentado por Manuel Luís Goucha e João Patrício, estreou este sábado à tarde com tudo aquilo que uma grande estação generalista portuguesa entende que deve ter um programa de entretenimento: dois apresentadores cúmplices, convidados famosos, público em estúdio, concorrentes escolhidos na plateia, música, jogos, prémios, emoção, surpresas e um cenário que parece ter sido construído com o objectivo de iluminar simultaneamente Lisboa e a Lua.

A TVI chamou-lhe grande televisão.

E é grande.

Muito grande.

Talvez esse seja precisamente o problema.

O auditório de Fora do Baralho: grande cenário, grande parede multimédia e uma estética de entretenimento que parece ter ficado nos anos 2000.
O auditório de Fora do Baralho: grande cenário, grande parede multimédia e uma estética de entretenimento que parece ter ficado nos anos 2000.

O cenário é um daqueles casos em que se percebe perfeitamente quanto dinheiro, tecnologia e esforço foram investidos e, ao mesmo tempo, quanto pouco disso se traduziu em linguagem televisiva.

Há uma enorme parede multimédia, estruturas coloridas, cartas gigantes, molduras gigantes, luzes por todo o lado e uma quantidade impressionante de superfícies reflectoras.

Tantas que, em determinados momentos, a iluminação do estúdio parece estar a fazer branding directamente na careca do Goucha.

Não é uma questão de gosto. É uma questão de linguagem visual.

A televisão de entretenimento dos anos 2000 adorava isto: um auditório cheio, um cenário monumental, luzes brancas directamente para todo o lado, uma parede de vídeo, apresentadores a atravessar o palco e a sensação de que, se aumentássemos ainda mais a intensidade das luzes, o programa ficaria automaticamente mais espectacular.

Passaram vinte anos.

A televisão, entretanto, mudou.

O cenário de Fora do Baralho parece não ter recebido a notícia.

Depois há os jogos.

E aqui acontece uma coisa particularmente curiosa: as mecânicas são simultaneamente antiquadas, pouco estimulantes e difíceis de perceber.

Não é fácil conseguir estas três coisas ao mesmo tempo.

Os jogos parecem concebidos a partir da ideia de que um programa de televisão precisa de jogos porque os programas de televisão têm jogos.

Não porque exista alguma razão particularmente interessante para os ter.

Há perguntas, escolhas, desafios, prémios, cartas e toda uma gramática de concurso que conhecemos há décadas. Só que falta uma coisa bastante importante: vontade de jogar.

E, pior, às vezes nem sequer é imediatamente evidente como se joga.

O espectador precisa de perceber a mecânica. O concorrente precisa de perceber a mecânica. O apresentador precisa de explicar a mecânica.

E nós ainda estamos a tentar perceber por que razão aquilo está a acontecer.

Até o acto de começar um jogo parece pertencer a outra época: o apresentador aproxima-se de uma televisão gigante e finge clicar nela.

Finge.

Não há nada mais 2000 do que um adulto a fingir que toca numa televisão que claramente não precisa de ser tocada.

A mecânica de "chamar o jogo": o apresentador simula o clique numa televisão gigante.
A mecânica de "chamar o jogo": o apresentador simula o clique numa televisão gigante.

É uma pequena coisa, mas é reveladora.

A tecnologia está ali para simular tecnologia.

E depois temos Goucha.

Goucha é uma instituição televisiva portuguesa. O problema é que também é, neste momento, quase uma grelha de programação.

Sábado: Fora do Baralho.

Domingo: Funtástico.

E entretanto ainda há entrevistas, galas, eventos, Globos de Ouro e tudo aquilo que a televisão portuguesa consegue arranjar para uma pessoa que já provou repetidamente que sabe fazer televisão.

Talvez a questão não seja se Goucha consegue.

Claro que consegue.

A questão é se nós precisamos mesmo de o ver conseguir tudo.

Há uma altura na carreira de uma figura televisiva em que a ubiquidade deixa de ser um activo e começa a ser uma característica do mobiliário.

Goucha já não apresenta apenas programas.

Goucha apresenta a TVI.

Talvez esteja na altura de deixar o homem descansar a beleza.

João Patrício é outra história.

A TVI percebeu uma coisa que provavelmente os dados demográficos já lhe tinham explicado há muito tempo: há uma parte significativa do público feminino que olha para João Patrício com a mesma disponibilidade com que uma geração anterior olhava para Luís Represas.

É o thirst trap para senhoras de uma certa idade.

E não há absolutamente nada de errado nisso.

Pelo contrário: é uma estratégia perfeitamente legítima.

O curioso é que, entre os dois, existe uma oportunidade muito maior do que a de colocar um homem bonito ao lado de um homem que já está cansado.

Porque Fora do Baralho podia ter uma coisa que a TVI tem praticamente à mão e parece não querer aproveitar.

Uma crónica semanal de televisão e celebridades.

Não mais um jogo.

Não mais uma celebridade a escolher uma carta.

Não mais alguém da plateia a tentar acertar numa coisa qualquer.

Uma conversa.

O que aconteceu esta semana? Quem se zangou com quem? Quem acabou um namoro? Quem apareceu onde? Quem lançou o quê? Quem disse aquilo? O que está a acontecer nos bastidores da televisão?

Goucha é, provavelmente, uma das poucas pessoas em Portugal com capital, experiência e acesso para transformar isso numa conversa semanal verdadeiramente interessante.

João Patrício pode fazer o papel de contraponto.

Os convidados estão disponíveis.

Os protagonistas estão todos a trabalhar dentro da própria estação.

As revistas estão disponíveis.

As redes sociais estão disponíveis.

O país inteiro já fala disso.

Era só preciso alguém ter pensado: e se fizéssemos televisão sobre a televisão?

Mas não.

Fizeram um jogo.

A grande televisão

A estratégia da TVI para esta rentrée é assumidamente a de recuperar formatos de grande entretenimento, rentabilizar produção interna e colocar a estação no centro da conversa. José Eduardo Moniz falou mesmo em "grande televisão", enquanto a estação aposta também no cruzamento entre televisão e digital.

E, em justiça, Fora do Baralho cumpre parte da promessa.

É grande.

É familiar.

É uma produção interna.

E tem um formato que pode acomodar quase tudo.

A questão é outra.

Se isto é o grande branded content da TVI em 2026, quase 2027, então há qualquer coisa de profundamente estranho na ideia que a estação tem de si própria.

Porque Fora do Baralho não parece um programa que esteja a tentar descobrir como será a televisão daqui a cinco anos.

Parece um programa que tem saudades de quando a televisão era assim.

E talvez seja precisamente por isso que funciona.

E funcionou.

A estreia liderou a tarde, com 13,6% de share.

O público apareceu.

O programa ganhou.

As cartas ficaram dentro do baralho.

Só falta perceber em que ano.

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